“O western é um folclore americano: uma mitologia que depende mais da fantasia do que da história”
- A. C. Gomes de Mattos
Incrível é a capacidade humana de distorcer. Distorcemos tudo, qualquer tipo de coisa, não importando o que, mesmo que a vitima da distorção já tenha sido distorcida anteriormente: a distorção da distorção. Exemplificando, para tornar entendível esse confuso paragrafo: o artista inglês Banksy, que fazia arte vândala nas ruas de Londres, através de pichações, e outras intervenções pouco aceitas socialmente, mas que hoje em dia porem, tem essas mesmas manifestações declaradas patrimônios. Exemplos históricos então: alta idade média/baixa idade média, revolução russa, o cangaço. É possível escrever artigos inteiros apenas com as distorções feitas pelo homem, a partir de uma idéia inicial.
Tento essas considerações feitas, é possível afirmar que os filmes de western clássicos, conhecidos no Brasil como faroestes (aportuguesamento do termo far West, oeste distante) não passam de uma alegoria distorcida da verdadeira conquista do oeste (período histórico dos Estado Unidos, que é retratado nesses filmes). E indo mais a fundo, podemos dizer que o western spaghetti, termo que tomo a liberdade de aportuguesar para faroeste espaguete são a distorção desses filmes clássicos de cowboy.
Infelizmente meu trabalho não se foca nos westerns como um todo (que sozinho já seria o suficiente para a elaboração de um projeto inteiro), apenas em um subgênero especifico, sendo assim terei que suprimir décadas interessantíssimas da história do cinema, para expor aqui apenas as informações necessárias para o entendimento do estilo cinematográfico em questão.
Os faroestes tem sua raiz, antes mesmo da invenção do cinema, na época contemporânea ao período histórico que representam (meados do século XIX), com os romances escritos por escritores nômades, que iam de cidade em cidade ouvindo as histórias sobre pistoleiros valentes. Literatura vendida na época por 10 centavos de dólar.
Eu achei realmente interessante, quando no livro “Publica-se a lenda: A história do western.” de A. C. Gomes de Mattos a seguinte frase: “a obra (literária) The Virginian (escrito por Owen Wister) contribuiu mais do que qualquer outra, para a construção do cowboy como figura central do western”, até ler essa passagem, eu nunca tinha concebido um faroeste, sem um caubói protagonista, como se o gênero não pudesse existir sem esse herói no centro da trama, quando na verdade esse era apenas o representante de um classe dentro daquele contexto social.
Já a encenação, propriamente dita começou no final do século XIX, com um grupo teatral chamado de Buffalo Bill’s Wild West Show, que encenavam histórias de cowboy, com cowboys e índios de verdade, já que na época esse chamado “wild west” que dá até nome ao espetáculo ainda existia, porem em situação moribunda.
O primeiro filme considerado do gênero western foi O Grande Roubo do Trem – The Great Train Robbery de 1903 dirigido por Edwin S. Porter, com apenas 11 minutos, o que era a média das produções da época. A película causou um grande furor quando lançada, pois possuía uma cena de extremo mal gosto, para os padrões do inicio do século XX, onde no final do filme, o bandido apontava a arma para a câmera, ou seja, contra a plateia e disparava.
Pouco se pode falar do gênero na década de 1910, que ainda estava se construindo. Mas é dela que se herda todas as formulas e definições do estilo, que são, resumindo-se em apenas uma frase: o conflito entre a civilização e a selvageria. E nesses conflitos encontramos apenas três classes de personagens: a população da vila, cidade ou fazenda, os vilões: índios ou foras da lei e o herói: caubói.
Na década de 20, passamos para a iconificação dos elementos constituintes dos faroestes, eles deixam de ser simples coisas, para representaram algo maior. As pequenas cidadelas, embriões de civilização alegorizam as realizações humanas, superando qualquer obstáculo e trazendo uma esperança para o futuro. O cavalo passa a ser símbolo da mobilidade, da conquista de novos lugares, pois é ele que carrega os colonizadores em suas costas, o companheiro fiel. E é claro, as armas, o mais terrível dos maus nas mãos do vilão, mas também a ferramenta vingadora e justiceira, trazendo a ordem (pelo menos no discurso) para os lugares selvagens.
Isso tudo pode parecer uma visão romantizada e poética de simples filmes de caubói, e realmente são, mas não por isso te tornam mentirosas, é preciso lembrar que a depressão econômica estadunidense que começou com a quebra da bolsa em 1929 e teve consequências em toda a década de 30, fez com que a população da época buscasse um escapismo. O cinema era onde se ia para se fugir da dura realidade, esquecer por algumas horas dos problemas que assolam. E a figura do caubói, limpo, em trajes brancos, heroico, levando a justiça e triunfando nas situações menos favoráveis, que não possuía fraquezas, nem medos, era tudo o que se buscava.
Os anos 40 vieram, e foram considerados a era de ouro para esse tipo de filmes. Ainda preservavam em muito a idealização dos personagens, mas a influencia da segunda guerra mundial trouxe um amadurecimento para o gênero, e certas pitadas de preocupação social em suas tramas.
Já nos anos 50, foi o período dos chamados superwesterns, uma simples evolução do gênero, onde era deixado de lado o espirito otimista que a grande maioria das produções tinham até aqui para dar origem a histórias mais melancólicas, e situadas no final da conquista do oeste. Por esse motivo são conhecidos também com faroestes crepusculares. Isso provavelmente era reflexo da faze em que o estilo estava passando, o inicio do fim, o começo da falta de popularidade, refletido nas telas.
E finalmente chegamos a década de 1960, e a invasão italiana.
Caracas, Homer! Nem sabia que existia o blog, haha.
ResponderExcluirGostei pra caramba de td! Paguei um pau de vdd pro primeiro teste (no primeiro post)!
Essa mistureba toda que vc propõe, e a justificativa para elas, me lembraram até do Tarantino defendendo seu estilo, haha!
Quero ver isso aí pronto!
Abs!
Luiz Gustavo (uva).