quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A música

Olá caros leitores, é com grande prazer que hoje, segundos as estatísticas passadas pelo blogspot, eu dobrei meu número de leitores! Agora, além da minha mãe, sempre citada por aqui, tenho o Aridoval, o mendigo... poxa, desculpa Seu Aridoval, você não gosta desse termo né?... o morador de rua aqui da esquina de casa. O qual eu prometi dar um notebook e um 3g caso lesse o meu blog.

Então olá Seu Aridoval! Seja bem vindo ao meu blog! O tema o poste (eu aportugueso algumas coisas, não estranhe) de hoje é sobre música.


“Quão pouca coisa é necessária para a felicidade, o som de uma sanfona.

- Sem música a vida seria um erro.”

- Friedrich Nietzsche


Frase estranha né? Eu achava que Nietzsche achava a vida um erro invariavelmente (E esse foi mais um momento: “Olha mãe, eu leio filosofia!”). E eu também não sabia que ele curtia sertanejo.

Ok, chega de piadinhas que isso tá ficando maçante, e o Seu Aridoval sempre me diz: ”Piada é bão, mais piada di mais num é bão não, estraga”.

Semana passada fui na casa do Álvaro Pontes, um colega de turma, grande amigo, e também o lobisomem da minha animação. Pedi humildemente (como se atuar já não tivesse sido o suficiente) para que ele fizesse a trilha sonora da minha animação. Na verdade a gente já tinha conversado sobre isso previamente, eu fui lá apenas para explicar direitinho o que eu queria, e passar umas referências para ele, mas é claro, ele tem total liberdade de fazer o que ele quiser, e também nada do que eu tenha falado, afinal quem entende de música é ele e não eu.

Sergio Leone dizia que 60% do filme, é a música. Eu espero sinceramente que não, por que em caso afirmativo, esse TCC seria do Álvaro e não meu. Mas apesar de hiperbólica essa frase tem muita razão no sentido de considerar a música um dos elementos chaves do produto áudio visual; A música (pô, terceira vez no mesmo parágrafo, desculpa hein seu Aridoval) é, na minha opinião, a forma de arte que consegue emocionar de maneira fácil as pessoas (eu estou mentindo, eu acho que o cinema consegue mais fácil ainda, porém estou deixando ele fora dessa análise, por ele ser um aglomerado várias “coisas” inclusive música [4]), em contra partida é a que precisa de mais estudo e refinamento antes de se criar (vide o refinadíssimo estilo punk). Bastam (como se fosse fácil) 3 ou 4 subidas repentinas de tom, e pronto, você já emocionou muita gente.

Voltando a falar do Sergio Leone: ele é o diretor do meu Faroeste Espaguete preferido: Era uma Vez no Oeste, que é na minha opinião também, a melhor trilha sonora da história do cinema. Foi composta de gênio (no sentido mais genial da palavra) Ennio Morricone. Existem apenas 4 músicas no filme todo, que são os temas de cada um dos 4 personagens principais.

“Mas que sagaz esse Ennio não? Fazer as músicas baseadas nos personagens! Garoto peralta!” Na verdade as coisas foram feitas no sentido inverso, Leone esperou a música ficar pronta, para construir o filme sobre ela.

Essa característica já vinha, em proporções menores, nas suas produções anteriores, o duelo no fim de “O bom, o mal e o feio” também foi pensado com a música já pronta.

Então fica a dica Seu Aridoval, ouça a trilha de Era uma Vez no Oeste, e veja o filme também caso não o tenha visto ainda. Aquele som comprido de gaita no começo dá música do “Homem da Gaita” (The man with harmônica – personagem do Charles Bronson) arrepia até a minha alma!

Uma curiosidade: Jorge Lucas, enquanto fazia o primeiro Star Wars (o antigão), ouvia a trilha de “Era uma Vez no Oeste”, não é atoa que a marcha imperial do Darth Vader tenha em alguns pontos, as mesmas notas do tema do Cheyenne do faroeste. Com a diferença que a primeira é orquestrada e a segunda com banjo. =]

Por isso que, levando como referencia as obras de Leone, eu quero também esperar a música ficar pronta, para ai sim estruturar definitivamente o clímax da minha animação.

Vale lembrar também que no caso da minha animação, não será uma música de western, mas um híbrido de faroeste com cyberpunk, que é outra das 3 referencias maiores que eu estou utilizando.

O cyberpunk japonês tem uma construção sonora muito interessante, utiliza o som de máquinas, que seria um som ambiente, para formar a trilha. Acaba ficando um som poderoso e repetitivo, mecânico, que junto com o bombardeio frenético de imagens cria o clima de terror tecnológico e confusão mental que esse tipo de produção preza. Mas depois eu faço um poste sobre isso.

Então, a trilha que o Álvaro fará misturara as músicas épicas dos faroestes com os sons mecânicos dos cyberpunks. Estranho eu sei, mas na minha cabeça ficou ótimo. Boa sorte Álvaro!

Mais umas coisas sobre música:

Enquanto eu rotoscopo, eu ouço música, mas para não ficar perdendo tempo trocando o aúdio, eu escolho uma banda, e vou ouvindo seus CDs na sequência. Já ouvi a discografia do Led Zeppelin, do Pink Floyd, do Legião Urbana. A próxima será Iron Maiden provavelmente.

Como prometido, ai está mais uma cena da animação, é o Curupira andando.

Tchau mãe! Tchau Aridoval! Obrigado por acompanharem o blogue!


sábado, 27 de agosto de 2011

Perfil de Personagem: Lobisomem

Então eu precisava caracterizar o meu lobisomem para a animação. Achei que o melhor a fazer era colocar a minha visão sobre ele, que eu sempre tive, e depois temperar com todo o estudo que fiz (e que postei aqui anteriormente).

Eu sempre adorei essa criatura, acho que eu me identifico com ela. O lobisomem me parece uma metáfora de mim mesmo; Não, não só de mim, do ser humano no geral. A eterna luta do homem para controlar seus impulsos imorais e violentos, ou seja, a forma hibrida é o equivalente do arquétipo da sombra para a psicologia. As transformações durante a noite, equivalentes ao medo do escuro, do desconhecido. É um mito simplesmente maravilhoso. A beleza do grotesco!

Mas não apenas por eu ser grotesco por excelência eu gosto do lobisomem. Ele também sempre foi para mim um sinónimo da força, da bestialidade e da fúria. Um ente impossível de ser contido e capaz de petrificar (de medo) qualquer um apenas com um rosnado possante.

A última característica marcante é a rusticidade, mesmo que na forma humana. Como os mitos sempre se passam no campo, é fácil pensar no lobisomem como um homem simples e rural.

Resumindo, se me pedissem para descrever um lobisomem eu falaria: um caipira (com o perdão da palavra), que mesmo na forma humana se assemelha a um ser mais primitivo, Neandertal: alto, forte, peludo e apresentando feições que pareçam ter sido esculpidas a faca. De pouquíssimas palavras, misterioso e nunca sorri. Interessante, eu nunca tinha percebido que na minha concepção, ele é meio animal mesmo quando homem; Na forma híbrida é um monstro com mais de 2,5 metros, extremamente forte e extremamente ágil, possui sentidos aguçados e uma inteligência muito superior a de qualquer animal.

Até aqui tudo certo. Todos esses aspectos foram incorporados ao personagem sem problemas, já o fator do tom de sua pele me tomou alguns minutos. O meu lobisomem é um homem nordestino estereotipado, ou seja, possui a pele parda. Caro leitor, qualquer preconceito que você tenha visto na frase anterior, é coisa completamente da sua cabecinha.

Porém a própria visão nordestina do lobisomem, é que ele é não só branco, como anêmico. Existe uma história interessante, de um velho chamado Simão Gondim, que vivia no Rio grande do Norte, e era muito temido apenas por possuir pele alva e ter olhos azuis. Certo dia, quando esse teve tuberculose e tossia sangue, disseram que ele estava cuspindo o excesso de sangue de suas caçadas noturnas; Simão acabou por morrer de fartura, alimentou-se tanto que certo dia teve uma crise, e passou dessa para uma melhor enquanto expelia seus excessos (essa história está no “Geografia dos Mitos Brasileiros” de Luís Câmara Cascudo, porém em versão não menos resumida).

Enfim, voltando ao tópico depois da breve divagação, achei melhor que meu lobisomem fosse branco. Afinal, ele tem raízes europeias e o quase consenso no Brasil quanto sua arianidade;

Pode parecer besteira se preocupar com esse tipo de coisa, e talvez até seja mesmo, será ninguém além de mim se preocuparia com isso? Não sei dizer, mas um ponto crucial do meu trabalho, com essa personagem e também com a do saci e da mula, é que essas três personagens são espécies de criaturas, ao contrario do curupira que é um ser único. E por esse motivo eu queria evitar ao máximo abrir espaços para comentários do tipo: “Nossa, eu sempre pensei no lobisomem diferente disso”.

Acho que não ficou claro, então vou explicar de outra forma para compensar minha inabilidade como dissertador; O lobisomem da minha animação é O lobisomem, e não UM lobisomem. Ele é feito para representar toda a classe de criaturas, uma personificação do mito, e não apenas um homem qualquer que tem licantropia.

Certo, temos ai um personagem... mas não parece que falta alguma coisa? Alguma característica para dar um tempero a mais, o personagem ainda está muito comum, é preciso de uma alma!

Hehehe, a última característica adicionada veio espontaneamente, eu vi tantas características similares entre o lobisomem e o western, que foi impossível não fazer um referenciar o outro e transformar meu metamorfo em um caubói. Aliás, transformar é uma péssima palavra, pois o perfil que eu mostrei anteriormente serve para qualquer personagem de faroeste, principalmente os do tipo espaguete (deixo explicações para outro tópico) sem que qualquer coisa fosse mudada.

É tão verdade o paragrafo anterior, que apesar de parecer que eu pensei previamente nisso tudo, na verdade eu me dei conta disso, e bem tardiamente, já nas filmagens, quando eu arrumei uma jaqueta e um chapéu para o personagem. “Álvaro, pensa no que o Clint Eastwood faria.” (Álvaro é o interprete do lobisomem), puis um cigarro em sua boca, cortei falas, mandei toda a movimentação de cena ser contemplativa a ponto de o mais pequeno movimento parecer algo precioso, não importa o tempo que leve, o que importa é a apreciação do ato de se riscar um fósfora. E as rugas! As abundantes e preciosas rugas! Elas deixam tudo mais bonito, sem brincadeira. Stephen King, em algumas notas na introdução de sua série de livros “A Torre Negra” diz sobre o filme “O bom, o mal e o feio” (também conhecido com “Três homens em conflito”):

“Numa tela de cinema, projetado com as lentes Panavision certas, Três Homens em Conflito é um épico que rivaliza com Ben-Hur. Clint Eastwood parece ter uns cinco metros de altura, com cada espeto de barba brotando no rosto mais ou menos do tamanho de uma pequena sequoia. Os sulcos rodeando a boca de Lee Van Cleef são fundos como desfiladeiros e quem sabe não há um filete d'água no fundo de cada um.”

As rugas são preciosas! Elas são a melhor caracterização que esse tipo de personagem pode ter, mostram em apenas um enquadramento simples, o que um milhão de palavras falhariam e dizer e uma centenas de ações mostrariam com muito custo. Sem contar que essas mesmas rugas levam o pistoleiro sem nome (personagem de Clint Eastwood no filme) ao cúmulo do feio-bonito, uma beleza máscula, selvagem, rústica e praticamente perdida com a onda de homens andrógenos que temos hoje. Ele é um verdadeiro homem! “Pô Léo, você é o maior viadão, fica falando ai do cara. Ha ha ha. Sua bixinha”. Vai se foder! Tira essa merda de pensamento antiquado da cabeça, eu falar que um homem é bonito não interfere em nada na minha opção sexual porra!

Enfim, meu lobisomem precisa das rugas! Precisa de tudo que está associado com o western, precisa ser tão épico, lindo e precioso quanto os personagens do Sergio Leone! Deu para perceber o quanto eu sou apaixonado por esse tipo de filme né?

Voltando ao racional, eu não sei quais dessa série de características foram adicionadas antes, e quais depois de eu perceber que o lobisomem é o faroeste espaguete, mas eu achei que isso enriqueceu tanto o personagem e a história em si, que acabei fazendo isso com todos os personagens, transformei o curupira no expressionismo alemão e o saci no cyberpunk japonês. O que ainda trouxe mais uma característica que considerei formidável a animação: três estilos tão distintos, colocados juntos fazem os personagens ficarem além de mais profundos, mais diferentes entre si, o que torna a briga do lobisomem e do curupira, assim como os motivos do saci em enganar os dois, ainda mais verossímil. E ao mesmo tempo que os afasta, os aproxima, pois com o passar da história os estilos convergem para um ponto comum e se misturam, e ao meu ver desaparecem no resultado.

Um grande orgulho me invade quando eu penso em tudo isso, eu não poderia esperar algo melhor da minha animação, espero que as pessoas sintam pelo menos uma fração de tudo isso ao assisti-la.

Vou deixar as explicações sobre os outros dois personagens para postagens futuras, pois já me estendo demais. Em breve também coloco mais alguma cena aqui.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Mais sobre o bichão!

O cristianismo se apossou do mito e o modelou para beneficio próprio, como fez com inúmeras outras crenças, festas e manifestações culturais. O lobisomem católico segue uma série de regras religiosas, e o enigmático e sagrado número sete aparece em rajadas na história.

O exemplo é o lobisomem português, que é claro foi a base para a formulação do lobisomem brasileiro.

“O lobisomem é o filho que nasceu depois de um série de sete filhas [...] Todas

as terças e sexta-feiras da meia-noite as 2 da manhã o lobisomem tem que fazer sua corrida visitando sete adros (cemitérios) de igreja, sete vilas acasteladas, sete partidas do mundo (porto), sete outeiros (morro pequeno), sete encruzilhadas, até regressar ao mesmo espojadouro onde readquire a forma humana” O lobisomem português é bem metódico, não? Ele dever ser um maratonista, ou o flash, na forma humana para correr tudo isso em 2 horas. E provavelmente sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

Voltando a cristianização do mito: “Diga-se 3 vezes “Ave Maria” que ele dará um grande estouro rebentando-se e sumindo”, esses dois trechas são do livro de Oliveira Martins: “Sistemo dos Mitos”. Na mesmo página ele descreve que o lobisomem passa pelas aldeias aterrorizando os camponeses ainda não adormecidos. Que é uma herança clara da festa de lupercais.

Fora da Europa:

Na Rússia todos os lobos que uivavam a noite eram os pecadores amaldiçoados e transformados em lobos. Provavelmente essa crença é também por influência dos romanos.

No resto do mundo os metamorfos possuem a forma de outros animais. Como as mulheres-hiena da África (o único lugar onde a metamorfose é dita exclusivamente feminina). E as pessoas-tigre da Malásia. Existe um caso de um homem malaio chamado Hadji Abdallah, que foi encontrado em uma armadilha para tigres, perto de onde gado estava sendo morto. Ele confessou ser um licantropo e pagou as cabeças de gado mortas.

Na índia é dito que o Baris se transformam em leopardos, por isso que para eles o animal é sagrado, e não existem casos de homens atacados por esses felinos.

Na américa antes da colonização, os índios Mbayas acreditavam que as velhas se transformavam em jaguares depois de mortas. Os feiticeiros dá tribo dos Abipones diziam ser capazes de se transformar em jaguares invisíveis (esses sim são perigosos). Ambas as tribos são de territórios não brasileiros, ou seja, a licantropia chegou aqui de navio, junto aos colonos.

Mas todas essas histórias são de metamorfose e encontram-se longe do mito do lobisomem por assim dizer. A figura de homem-lobo só ressurge na China, e por incrível que pareça, e a mais parecida com o lobisomem brasileiro que existe.

Lá, entre muitas outras histórias, é dito de um aldeão que depois de perseguido por um lobo, ao tentar subir em uma árvore teve sua calça mordida pelo animal. A vítima sem conseguir pensar em outra possibilidade, pegou o machado e o fincou na cabeça do animal. No dia seguinte se descobriu que o lobo era um velho da sua aldeia, pois esse apareceu com um ferimento na cabeça e com fiapos de tecido entre os dentes.

Brasil:

É interessante a visão do lobisomem no norte e nordeste do Brasil. O mito serve para explicar o “amarelão”. Diz-se que o corpo cansado e fraco dos homens com a dita doença precisa de uma dose extra de sangue para continuar a viver, sendo assim os enfermos devem virar lobisomens para saírem de noite em suas caçadas e retirar os fluídos das vítimas.

Mas o amarelão não era a causa da licantropia, não, existia um ritual certo para se hibridificar. É preciso ir de noite em uma encruzilhada, ficar completamente nu, dar sete (olha ele ai de novo) nós em suas roupas, rolar no chão e uivar o mais parecido com lobo que conseguir, e pronto. Para dar fim a metamorfose basta furar o dito cujo com um objeto pontiagudo, assim que se é tirada uma gota de seu sangue ao menos, o auto amaldiçoado volta a forma humana. Mas muito cuidado, se algum dia você fizer um lobisomem se desvirar e voltar a ser homem, não abaixe a guarda, pois a vergonha de ser descoberto e o medo da reação das pessoas levam o desencantado a se voltar contra o próprio salvador, e passar-lhe fogo, ou ainda fincar-lhe a peixeira. E é por isso que não se existem dados concretos nenhum sobre essas criaturas, e nem testemunhos definitivos.

Pobre do lobisomem paulista, é um “animal” que, além de coprófago, beira o patético, e ainda por cima é depressivo. Quem conta é Cornélio Pires:

“O lubisóme é um cachorrão grande, preto, que sai tuda a sexta-fera cumê bosta de galinha, daquelas preta, mole, que nem sabão de cinza... Ele sai e garra corrêmundo nu’a toada, sem pará, cabeça-baxa, esganado e triste... Vacê arrepare in tuda a casa de sitio: in baxo das jénela tá tudo ranhado de lubisóme. Ele qué intrá p’ra cumê as criança que inda num forô batizada...”

No sul pouca ou nenhuma mudança ocorreram em relação a visão europeia pós-cristianização do mito, ou seja, a licantropia como castigo divino.

É estranho que eu não achei menção nenhuma a noites de lua cheia, ou mesmo a balas de prata no livro “Geografia dos Mitos Brasileiros” de Luís da Câmara Cascudo. Que é uma verdadeira bíblia de folclore, explicando a origem de tudo. Em outros livros que tratam do mesmo tema, são citados os dois elementos, porém nunca explicando sua origem.

Uma teoria minha, é que essa parte do mito é recente no lobisomem sul-americano, adquirida apenas no século XX, com o cinema. O primeiro filme de lobisomem que eu tenho noticias é “The werewolf of London” de 1935. Os estadunidenses, que faziam esses filmes, herdaram o mito dos saxões, onde ele deveria ter essas características (lua cheia e prata), e que foram portanto assimiladas por nós. Mas caros leitores (plural... até parece, mãe, você é minha única leitora, vou falar diretamente com você ok?), mas mãe, isso é uma suposição minha tá? Eu posso estar falando a maior merda do mundo.

As formas do bichão:

Calma mãe, já tô acabando.

No inicio, o lobisomem era na verdade apenas um lobo de tamanho atroz, simples assim, sem qualquer hibridificação.

Com os festivais Lupercais (eu expliquei na postagem passada, lembra mãe?), que a forma meio homem meio lobo entra em cena. Desde então se vê o lobisomem como um lobo com braços e pernas humanas. Que coisa feia!

Mais feio ainda eram os brasileiros, os amarelões do nordeste tinham orelhas de burro, no centro-oeste existiam alguns que eram 1/3homem, 1/3 lobo e 1/3 porco, isso quando não tiravam o lobo da equação e virava só um homem porco.

Nos filmes antigos, a maquiagem só permitia que o lobisomem fosse um homem peludo e com dentes compridos e roupas rasgadas, ainda assim melhor que seus antecessores.

Mas a visão mais interessante (MAIS DA HORA!), na minha opinião, veio apenas nos anos 80 com o filme “Um Lobisomem Americano em Londres”, onde vemos uma criatura grande, musculosíssima, com um rosto mais lobo que homem, corpo completamente coberto de pelos, rabo, tronco humano e que pode tanto ser bípede quanto quadrupede. Animal! Se me permite o trocadilho.

ELE FICO ASSIM!

Mãe, se você chegou até aqui, obrigado pela paciência da senhora em ler tudo.

Próximo post: A criação do meu lobisomem.

PS: Pequena curiosidade sobre traduções idiotas de títulos de filmes: “The Werewolf of London” de 1935, veio para o Brasil com o titulo de “O Homem Lobo”, quando em 1941 saiu o filme “The Wolf Man”, como a tradução literal era do outro filme, eles deixaram: “O Lobisomem”. Então não se confundam, o wolf man é o lobisomem, e o werewolf é o homem lobo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A origem do Lobisomem

Na minha história, escolhi os quatro personagens mais populares do nosso folclore, o saci, o curupira a Mula-sem-cabeça e o lobisomem, acho que não há alguém que discorde dessa afirmação. Mas entre os 4, o lobisomem é sem duvidas o fodão, afinal ele é o único desses quatro mitos que não é exclusivamente brasileiro, alias ele aparece em quase todo o globo, no mundo ocidental não há lugar em que não tenha existido.

Como o texto ficou longo, dividi ele em três, começarei falando da construção do mito nesse primeiro post. A cristianização do mito, a visão portuguesa e a visão de fora da Europa, e sobre a forma da criatura com o passar do tempo, no segundo poste. E depois de como me baseei nele para construir o meu personagem no terceiro. Faço a divisão para não tornar a leitura muito massante, e ,pra quem não tiver a fim de ver tudo, pode ler só o último que é o que tem relação direta com a animação.

Provavelmente a referência mais antiga ao mito do lobisomem vem da Grécia. Na mitologia grega existe o rei Licaon, da Arcádia. Um certo dia Zeus (deus maior da mitologia grega) vai pernoitar em seu palácio. A história daqui para frente é confusa, existem inúmeras versões, alguns dizem que Licoan tentou matar o deus, outras versões dizem que o rei fez sacrifícios humanos, alguns dizem que o próprio filho, em nome do deus, que o deixaram muito irritado, por fim existem até mesmo as versões que dizem ter o soberano levado a mesa carne humana para que a divindade comesse.

Seja como for, o final é sempre o mesmo: o rei desperta a cólera divina e é transformado em lobo como punição de seus atos.

“Ah, Leonardinho, mas então nem faz tanto tempo assim.” Tem razão quem pensou dessa forma, a história acima é contemporânea a época das cidades estados, com pessoas vestindo lençóis (togas) e filosofando por ai. Mas eu a contei apenas para poder puxar suas origens, e essas sim são muito antigas, e a elas que eu me referia ao dizer: “provalemente a referencia mais antiga do mito do lobisomem”.

Existia na Árcádia, antes da Grécia ser Grécia (período pré-helênico) tribos canibais que reverenciavam um deus lobo, e ofereciam para ele sacríficos humanos (entende agora o ato de levar a mesa carne humana e oferecer sacrifícios?).

Mais ainda, dizem alguns estudiosos que o deus mais antigo dos povos que viviam na Grécia era chamado de Zeus-Licaeus. Ou seja, uma mistura de Zeus e Licaon. Ele era o deus da luz, e tinha um filho rebelde, chamado Nietimus (eu acredito que a palavra noite deriva do nome desse cara), que era o deus da escuridão, ambos estavam em luta constante, os períodos em que Zeus estava ganhando era iluminados (o dia) e quando Nietimus estava ganhando, a escuridão dominava (a noite).

“Tá, e dai?”

Poxa não dá para perceber? A noite significam a derrota de Licaeus, ou seja, o fato do lobisomem só se transformar durante a noite, vem daí. Não é maravilhoso?

“Mas o Zeus-Licaeus é o deus da luz, não do lobo”.

Você tem toda a razão. Acontece que nessa época talvez a escrita não tivesse sido inventada naquela região ainda, e se tinha sido (desculpem, não consegui achar informações a esse respeito) provavelmente era privilégio de poucos, sendo assim Licaeus, nome que como origem etimológica luke (luz) podia ser facilmente confundida com luko (lobo).

Ou seja, seria a origem do lobisomem uma simples confusão semântica?

Vamos para Roma?

É de conhecimento de poucos que no mito de Rômulo e Rêmulo ( Link da Wikiédia ) a loba que amamenta é a representação de uma prostituta (na época esse era o apelido da profissão), esse pseudônimo dado as meretrizes vem de uma antiga deusa que guardava os lares, o que explica a loba ter amamentado as duas crianças e ter lhes dado um “lar”.

Devido a tudo isso o canídeo era sagrado e reverenciado pelos romanos nas festas de 15 de fevereiro, as Lupercais. Nessas festas, jovens rapazes que vestiam apenas uma tanga com pele de lobo eram tocados no rosto com uma faca encharcada de sangue (derivado do sacrifício de cães e cabras) por um sacerdote. Esses moços, chamados também de lupercais saiam correndo e uivando, flagelando os habitantes.

“Pra quê tudo isso meu deus?”

Esses eram rituais de purificação, derivados de cultos orgásticos. As mulheres acreditavam que se flageladas pelos lupercais, seriam férteis e teriam bons partos.

Com a expansão territorial do império romano, a história se espalhou por toda a europa, mesmo com a eventual extinção do festival. Os frutos dos lupercais foram os Werewolfs (nos países de língua inglesa), os Loup-Garou do franceses e o Lobisomens da península ibérica. E assim cada vez mais o mito tomava forma.

Música do dia: Em vez de música vou recomendar um filme que assisti esse fim de semana, então vou reapelidar para "dica do dia". Dica do dia: o filme "O pagador de Promessas" de 1962, dirigido por Anselmo Duarte, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes.

sábado, 20 de agosto de 2011

Bipolaridade

Malditos sejam os sábados! Principalmente os sábados pós-festas! Dia de ócio! Por que final de semana tem tamanho poder de fazer o nada ser tudo o que eu desejo? Desejo de fazer nada!


"Hoje é sábado, amanhã é domingo

Amanhã não gosta de ver ninguém bem

Hoje que é o dia do presente

O dia é sábado!"

Vinícius de Moraes - O Dia da Criação


Muito boa essa música! Se puderem, ouçam-na inteira.

Hoje acordei bravo. Mas isso estava me cansando. O grande problema de se ficar bravo, é que é preciso fazer algo, remoer o motivo de sua braveza, e eu não estava com vontade de fazer isso, pois até isso parece ser algo demasiadamente trabalhoso perto do fazer nada.

Então relaxei.

E ai? Ai nada, oras.

Mas então a minha braveza me cutucou, e seus motivos começaram a se remoer sozinhos, e quando menos vi estava eu lá, fazendo alguma coisa.

Tentei relaxar mais uma vez, não deu em nada. Tentei novamente e nada. Agora já que eu estava inevitavelmente fazendo algo, por que se contentar com pouco? Minha mente estava ativa, vamos ativar as mãos também.

Puis-me a rotoscopar.

Saci e a última piada. A história me veio como um soco, levando a minha braveza embora com pontapés. Piada! A vida é a porra de uma piada!

Essa frase faz tudo parecer tão pequeno e insignificante. É ela inclusive peça chave na minha trama, que destrói meus personagens e faz a minha animação ficar triste. Porém em mim, o autor, teve o efeito inverso, graças a ela os motivos ridículos de minha braveza se tornaram engraçados e comecei a gargalhar sozinho (não é mentira).

Tive um bom dia no fim das contas, e até consegui ter um dia produtivo se considerarmos que é um sábado. Mas o que eu tô fazendo aqui escrevendo enquanto eu deveria estar rabiscando?

PS: Um agradecimento especial a Leticia Tescaro que me fez um ótimo elogio ontem: “Homer, você é um cara estranho!”. Muito obrigado.

PPS: O PS anterior não tem nada relacionado ao resto do poste.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sobre a rotoscopia

Ontem foi um dia preguiçoso, fiz apenas 103 quadros. E já que eu estou fazendo a animação com 10 quadros por segundo, isso dá 10,3 segundos de animação certo? Infelizmente não.

A técnica de animação que estou usando é a rotoscopia, se você procurar no Wikipédia, ele dirá:"Rotoscopia é uma técnica usada na animação onde usa-se como referência a filmagem de um modelo vivo, aproveita-se então cada frame filmado para desenhar o movimento do que se deseja animar.", e isso é tudo o que ele diz sobre o assunto. E se o oráculo só diz isso, por que eu deveria dizer mais? Isso ai, até a próxima pessoas!

Hmmm... não, vamos continuar.

Escolhi essa técnica por que eu acho ela muito legal, acho muito interessante como tudo fica vibrando mesmo quando teoricamente parados, parece que dá mais vida aos personagens, e também passa uma rusticidade ao projeto que vem muito a calhar com o meu tema, e com o clima em si de minha animação, sem contar que condiz até mesmo com a minha personalidade.

Ilustração de um Rotoscópio.

(Era assim que faziam antigamente)

Mas o ponto mais importante mesmo, e acho que definitivo, para eu escolher essa técnica, é a imprecisão dos traços, é claro que existem muitos casos de rotoscopias muito precisas e que não tem essa vibração (caso de “Branca de Neve”), mas a minha eu fiz questão de deixar, e até intensificar esse defeito/efeito. Explico. Como o tema abordado é folclore, e cada região tem uma visão própria dos mitos, acho mais interessante deixar espaços para interpretações. Não que seria um problema delinear um curupira com essa, essa e essa características, e sem essa essa e essa, mas na minha opnião o projeto ganha mais quando você pensa: “Essa mancha no olho é a sombra” enquanto o amiguinho do seu lado pensa: “Esse curupira tem manchas nos olhos iguais de certos felinos”. “Essas rugas é de braveza ou ele só é velho mesmo?”

“- Homero! Para com isso, você escolheu rotoscopia por que você é um preguiçoso do caralho!”. O pior, é que não. Rotoscopia é a técnica da preguiça burra, ela é mais fácil de se animar, afinal tá tudo lá, não é preciso pensar em conceitos como a antecipação ou a gravidade, “Deixa eu ver, eu me movimento para cima e para baixo enquanto ando”. Realmente mais fácil, porém tem um serviço mecânico descomunal! Desenhar quadro a quadro é um serviço maçante, então recomendo essa técnica só para quem realmente gosta dela, e não por preguiça.

Porém o fato de eu ter escolhido 10 quadros por segundo foi simplesmente o fato de ser a menor quantidade de frames que achei dar uma ilusão de movimento aceitável.

Por fim, por que eu disse que 103 não equivalem a 10 segundos? Na verdade equivalem se forem quadros completos e finalizados. O que eu disse que fiz ontem foram 103 quadros apenas de um dos elementos que compunham a cena. Exemplo:

Na cena acima temos 5 elementos: as nuvens, a lua, as estrelas e o texto. Ou seja, em uma cena de 10 segundos eu precisaria desenhar as nuvens 100 vezes e a lua outras 100, assim como as estrelas.

É claro que no caso dessa cena em expecifico, como os elementos não tem movimentos (apenas as nuvens) é possível desenhar apenas alguns quadros e ficar repetindo-os eternamente (o mesmo é possível com personagens que estão parados). Mas existe um porém, é impossível você enganar os olhos das pessoas que estão assistindo, não tem como repetir os quadros fazendo parecer que você desenhou um a um (salvo as vezes em que você desenhar 30 quadros do objeto estático, e mesmo assim, se a cena se prolongar demais se corre o risco de ser desmascarado). Mas não tem jeito mesmo? Não; Eu sei, eu tentei várias coisas, como por exemplo desenhar 10 quadros, e depois repetir eles em uma ordem aleatória (algo como1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,2,4,6,8,1,3, 10,5,7,9), é possível reconhecer os quadros que são repetidos, principalmente aqueles que você deu aquela erradinha, e o contorno do seu personagem ficou com aquela “ferpa”, e desenhar cuidadosamente não é uma opção, pois como eu disse anteriormente, isso tiraria um pouco dos defeitos/efeitos que eu prezo tanto, ou seja, diminuindo o conceito do trabalho.

Como último adentro, ainda no mesmo assunto, uma estética que eu gostei, e abordei para os personagens estáticos é a repetição heterogênea das partes do mesmo. Ou seja, imaginem por exemplo um personagem em uma cena colorida, enquadrado do busto para cima. Nele eu desenho 7 quadros para o cabelo, 5 para o rosto, 4 para o corpo e 3 para as cores. Isso faz com que o mesmo quadro se repita (com o mesmo cabelo, rosto, corpo e cor) a cada 420 quadros, mesmo assim isso não dá a impressão de serem 420 quadros distintos, mas fica uma estética um pouco mais interessante do que a repetição simples.

Então, se você for fazer uma rotoscopia, ou você abraça a causa e desenha TUDO! Ou repete os quadros sem medo de ser feliz (de preferencia 4 quadros para cima com a mesma imagem, na minha opnião 2 ou 3 quadros só, fica muito frenético).

Fim da postagem de hoje. E que toda a imprecisão dos meus traços se tornem deleite para os seus olhos.

Música do dia: Tempo Perdido – Legião Urbana.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mitologias e o mundo

Enquanto escrevia minha postagem anterior, achei que ela estava ficando muito comprida, com medo que isso desensentivasse (ta certa essa palavra? desensentivasse?) a leitura, resolvi dividir em dois. Aqui vai a segunda parte, que ficava +- no miolo do outro poste:
Ao ler “O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito” de Monteiro Lobato, me veio o seguinte pensamento: “Interessante pensar como essas criaturas do folclore eram tão temidas por adultos, e hoje em dia não passam de histórias para criança.” Inclusive, em alguns dos contos se diz que o saci não faz mal aos “brotos de gente”, tem que ser homem formado, e é possível puxar daí também um paralelo com o curupira, que protege plantas e animais, mas principalmente filhotes e fêmeas prenhas. Mas é claro que essa “infantilização” dos mitos são obras do próprio senhor Lobato com suas famosíssimas histórias infanto-juvenis.

Me aprofundando um pouco mais nos pensamentos, refleti a respeito de como outras culturas encaram suas próprias lendas nos dias atuais. A vertente mais forte com certeza é a mitologia nórdica e medieval, com seus elfos e trolls. Devido ao J.R.R. Tolkien, temos o livro “O Senhor dos Anéis”, que coloca as lendas em um panorama adultos, plasmando e transformando as criaturas a seu bel prazer, obra de tamanha importância que gerou um exercito de seguidores que criaram até jogos (RPG) onde se interpreta essas criaturas. Não parando por ai, a editora de HQs Marvel tem como um de seus heróis Tor (ou Thor), o deus nórdico do trovão.

Descendo um pouco, e indo para o berço do Ocidente, encontramos a mitologia que é muito querida para mim, eu podia passar horas lendo os contos pertencentes a ela nos meus tempos de criança, e provavelmente a mais admirada e icônica, em um sentido quase que platônico. É essa a mitologia Grega, ela abrange suas influencias tanto aos RPGs já citados anteriormente (que na verdade são uma mistura de medievalismo com mitologia nórdica e grega) quanto em inúmeros filmes (como “Jasão e os Argonautas” e “Fúria de Titãs”), séries (“As Aventuras de Hércules”, que eu também adorava assistir quando criança) e jogos (God of War). Vemos também uma belíssima apresentação onde um centauro atira uma flecha que arde em chamas e ascende a pira olímpica nas olimpíadas de Atenas, mas também, só faltava uma olimpíada na Grécia não fazer nenhuma referência aos seres mitológicos não é? Não apenas por ser na Grécia, afinal os outros povos não costumam colocar suas mitologias em apresentações, mas por os dois terem compartilhado a mesma época e terem influenciado um ao outro. Por fim encontramos ainda referencias dessa mitologia em termos do nosso cotidiano, ou nem tanto, como a palavra bacanal ou “complexo de Édipo” (embora “Édipo Rei” não possa ser considerado parte da mitologia) e em nomes como Dionísio, deus do vinho, algo similar a isso acontece no Brasil, onde temos o nome Iara, que é a nossa “sereia” do rio.

Descendo mais um pouco, encontramos a mitologia afro-caribenha. Não vou falar de umbanda aqui, afinal isso é religião, posso acabar ofendendo pessoas por comparar com mitologia, e essa parte da cultura africana vai muito bem, obrigado. Já o mesmo não se pode falar dos deuses animais. Pobre de Anansi, deus aranha, contador de histórias. A única referencia que tenho dessa mitologia é no livro do escritor inglês Neil Gaiman (o mesmo das HQs Sandman) chamado “Os Filhos de Anansi”, esse mesmo deus é personagem em outro livro do mesmo autor: “Deuses Americanos”, ambos recomendadíssimos, principalmente o segundo.

Anansi fumando baseado.


Existem dois aspectos muito interessantes e únicos na mitologia africana, o primeiro é que os deuses são animais e homens, ao mesmo tempo, e não como uma criatura hibrida, diferente dos lobisomens e minotauros, aqui eles são animais e pessoas, mas também não é por transformação, eles simplesmente são as duas coisas ao mesmo tempo, ou mesmo três, se não me engano existem também lendas deles em formas hibridas. A segunda característica é que essa mitologia é otimista, para ela os tempos atuais são os bons, onde já nos livramos dos temores passados. É contado que antigamente as histórias eram de Nyame, deus do céu, e que todas as suas histórias eram tristes, e os homens também eram tristes por consequência, pois não sabiam contar histórias. Certo dia Anansi roubou as histórias de Nyame e as entregou aos homens, a partir dai o mundo se encheu de alegria, e as histórias passaram a ser felizes. Então para os antigos africanos as histórias tristes são da época que Nyame era dono delas, e as felizes são as atuais.

Como falei do otimismo da mitologia africana, vale mostrar minha visão sobre as outras também: a nórdica, assim como a indiana costumam levar tudo para o meio, para a neutralidade, ou seja, existe a destruição e tristeza, mas essas coisas são necessárias para a reconstrução e felicidade, ou seja essas 4 coisa possuiriam importâncias equivalentes. Na mitologia egípcia e também dos nossos indígenas, me parece que as histórias simplesmente são, sem cair no mérito de positivismo, negativismo ou neutralidade. Já na Grécia, o clima das histórias se tornam pesados, tudo costuma ter finais trágicos e as histórias são sempre extremamente dramáticas.

Exemplo de yokais. (Imagem do filme: "A Grande Guerra Yokai" de 2005)

(Ainda não assisti esse filme)


Por incrível que se possa parecer, o caso mais parecido com o brasileiro, vem do Japão (no sentido de tratamento da mitologia pela sociedade atual). Os Yokais (palavra para designar as criaturas fantásticas da mitologia nipônica) estavam as moscas, caindo em esquecimento depois da segunda guerra mundial, na minha humilde opinião muito antes disso: o Japão passou por uma crise cultural fortíssima durante alguns séculos. “- Imagina, Leonardo! O Japão respira sua cultura ancestral!”. Concordo! E o problema está justamente na palavra "ancestral", seria a reprodução a única forma de se prezar pela cultura? E é esse justamente o ponto, quimonos por exemplo, são o vestuário do século 16. Seria o equivalente de usarmos armaduras medievais aqui no ocidente. Tentando resumir a divagação (para voltar logo para a o que diz respeito ao TCC em si) após a abertura do Japão para o ocidente no Período Meiji, a produção (que fique claro) cultural japonesa que já não estava lá muito bem das pernas, se viu em um leito de morte. A retomada do ato de se fazer cultura volta apenas, como já foi dito, mas vale se lembrar, na minha humilde opnião apenas na década de 1980, com uma cultura agora POP, e voltada em grande maioria para o consumo (influencia clara da dominação estadunidense) de mangas e moda extravagante. Voltando para os yokais: o pós-guerra japonês foi um período conturbado no japão, sem se aprofundar, nessa época o pensamento racional extremo dominava e fazia essas belas criaturas serem deixadas de lado, foi graças a Shigeru Mizuk, escritor de histórias em quadrinhos (mangaka) que fez uma série para crianças baseada nesses yokais, que as criaturas voltaram a ter visibilidade, quase sempre porem em mídias voltadas para crianças ou nos teatros Noh. Entenderam o paralelo com o nosso folclore que citei anteriormente? (Nipônicos e nipófilos de plantão, podem me xingar nos comentários caso eu tenha falado merda [Rá, as vezes eu sou tão engraçado, até parece que alguém tá lendo isso.])

Por hoje fico por aqui. Vale lembrar que tudo o que foi dito é um ponto de vista meu.

A recomendação de hoje é a música "Flight of Icarus" do Iron Maiden.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Como e quando fiz o roteiro.


Hoje estou animando a penúltima cena. “- Caramba! Você tá adiantado hein cara?”. Bem... na verdade eu apenas não estou animando linearmente. Resolvi animar esse cena pois durante o decorrer da animação, a mesma passa por algumas mudanças de estilo (nada demasiado) e eu queria ver como ficava.


1 quadro (frame) do que estou fazendo hoje

Mas é bom eu dar alguma base para você, não é caro leitor? Não fiz nenhuma referência à trama nem nada e já venho falando de penúltima cena? Vamos do todo para a parte então:

Tive a ideia [não é estranho ter que escrever idéia sem acento agora? Malditas novas regras de ortografia.] de fazer essa animação a exatamente um ano, ou seja, no segundo semestre de 2010. “Não seria legal fazer um curta metragem assim, assim, assim?”, mas foi durante uma viagem, enquanto eu tentava dormir em todo o conforto da poltrona do ônibus do Prata, que a ideia ganhou corpo (deu pra ver que eu não dormi, certo?). Cheguei em Rio Claro, minha cidade natal, com uma história praticamente pronta.

Seria ela um curta metragem focado nos personagens do folclore, apenas os 3 mais conhecidos: Curupira, Lobisomem e Saci. E teria uma abordagem mais séria, mais adulta.

O estopim para usar a nossa mitologia em um contexto sério veio do livro: “O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito” livro de Monteiro Lobato, apesar desse não reconhecer a autoria pois é apenas uma compilação dos contos desse nosso duende negro por várias pessoas. Esses estudos, foram utilizados pelo autor posteriormente para o desenvolvimento do livro infantil: “O Saci” (o primeiro livro do Sitio do Pica-Pau Amarelo), atitude louvável de Monteiro que serviu para reavivar o folclore que andava um tanto quanto esquecido na época.

É interessante pensar como a mesma referencia, ou seja o inquérito, tenha gerado vertentes de pensamento oposta em mim e em Monteiro Lobato (pelo amor de deus! não estou querendo me comparar ao lobato, afinal, ele é magro), enquanto esse celebre escritor praticamente sedimentou a visão que temos atualmente desse negrinho do no folclore (negrinho é um apelido carinhoso, e não um desdém. Em um mundo tão politicamente correto, mesmo que de maneira hipócrita, é bom avisar) e fez com que todos ligassem os mitos ao publico infantil. Eu por contra partida pensei logo em algo mais adulto.

Chegando de volta a Bauru, depois da viagem, escrevi o dito cujo do roteiro, e vi que por fim tinha escrito algo com um conteúdo triste e pesado. Como desde o primeiro momento sabia que seria uma animação, achei isso bom, animação em sua maioria costumam ser puxadas para o humor, a minha seria diferente. Agora eu tinha um folclore adulto e uma animação séria e triste.

Graças a conversas que tive com meus amigos Sato e Lia, acabei por desistir dessa primeira versão do roteiro, eles me mostraram que existiam erros atrozes na construção da narrativa. E eu mesmo não estava 100% satisfeito com ele, estava comum demais para o meu gosto, e prefiro coisas diferentes.

Já no começa desse ano, puis-me a reescrever o roteiro. A segunda versão veio com mudanças grandes, mas mantendo a mesma linha da anterior. Dessa vez eu não situava os possíveis espectadores, deixava o cenário como uma incógnita, para apenas no final, de uma vez só o público perceber tudo o que estava acontecendo. A evolução do roteiro foi tremenda, e fez com que as criticas dessa vez caíssem sobre pequenos detalhes.

A história final é simples, se foca em uma desavença ocorrida entre o Lobisomem e o Curupira, onde descobrimos tudo que culminou no presente momento, um duelo de vida ou morte, através de flashbacks.

E no inicio do primeiro semestre desse ano, comecei a animar...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Primeira postagem

Você já parou para analisar o nosso folclore? Já refletiu sobre as criaturas desse nosso vasto bestiário?

Já? De verdade?

Não sei quantas das pessoas que estão lendo esse postE* dirão que sim (alias, eu não sei nem se alguém além da minha mãe vai ler isso), mas crio esse blog mais voltado as pessoas que disseram um não, embora espero sinceramente que os que deram uma resposta afirmativa o apreciem.

Vou fazer aqui um diário do processo de confecção do meu Trabalho de Conclusão de Curso, em Design, pela Unesp de Bauru. Trata-se de um curta metragem em animação utilizando as criaturas do folclore brasileiro e tendo como inspiração os seguintes movimentos cinematográficos: Expressionismo Alemão, Faroeste Espaguete e o Cyberpunk Japonês.

Bizarro, não? Por que juntar coisas tão diferentes? Simples: por que eu gosto delas.

Sempre adorei mitologia, seja ela qual for, e talvez pelo fato de eu ser brasileiro (não diga!) e amar meu país, tenha uma visão um tanto quanto arbitraria. Eu acho sinceramente o folclore brasileiro e mais interessante e rico do mundo. Estudar esse fabulário é equivalente a ler tratados de antropologia sobre o nosso país. Sem exagero. Se tomarmos como exemplo o Saci, podemos citar em um resumo extremamente grosseiro três povos distintos: os índios que deram seu nome, os negros que deram sua forma e os europeus que deram sua personalidade (farei um outro poste uma descrição mais completa das características de formação dessa criatura). Esse vira-latismo é belíssimo e extremamente brasileiro (e não levem a expressão vira-lata como ofensa, nem como elogio, apenas como característica).

Quanto aos estilos cinematográficos; Sou e sempre fui cinéfilo, para me motivar a ver qualquer filme, basta que esse seja um filme (Vamos ver um filme?/ Sim./ Não vai perguntar qual?/ Não, coloque o que você preferir.). Mas é claro que eu tenho meus gostos e desgostos. Não gosto por exemplo de comédias românticas ( e até a isso ponho uma exceção: o filme sul-coreano “Eu sou um ciborgue, e daí?”de Chan-wook Park, muito bom. [ http://www.imdb.com/title/tt0497137/] ). E gosto, entre muitos outros, dos estilos aqui citados.

A explicação do por que de cada um dos estilos, deixo para postagens futuras, pois já me estendo demais na atual mensagem, e isso costuma ser o inimigo número 1 da internet.

Por último, queria agradecer ao meu amigo Rodrigo Selles, vulgo Louco, que me deu a ideia de criar um site para a animação. Resolvi que seria um blog, pois prefiro esse clima mais “descontraído”, acho que escreverei melhor aqui.

Espero que gostem do blog, deixo por último uma pequena amostra (apenas alguns segundos) do que já foi feito. É a cena do lobisomem (na forma humana) acendendo um cigarro:


*Eu gosto de abrasileirar (ou aportuguesar, sei lá) certas palavras, não estranhem.