
“O lobisomem é o filho que nasceu depois de um série de sete filhas [...] Todas
as terças e sexta-feiras da meia-noite as 2 da manhã o lobisomem tem que fazer sua corrida visitando sete adros (cemitérios) de igreja, sete vilas acasteladas, sete partidas do mundo (porto), sete outeiros (morro pequeno), sete encruzilhadas, até regressar ao mesmo espojadouro onde readquire a forma humana” O lobisomem português é bem metódico, não? Ele dever ser um maratonista, ou o flash, na forma humana para correr tudo isso em 2 horas. E provavelmente sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC).
Voltando a cristianização do mito: “Diga-se 3 vezes “Ave Maria” que ele dará um grande estouro rebentando-se e sumindo”, esses dois trechas são do livro de Oliveira Martins: “Sistemo dos Mitos”. Na mesmo página ele descreve que o lobisomem passa pelas aldeias aterrorizando os camponeses ainda não adormecidos. Que é uma herança clara da festa de lupercais.
Fora da Europa:
Na Rússia todos os lobos que uivavam a noite eram os pecadores amaldiçoados e transformados em lobos. Provavelmente essa crença é também por influência dos romanos.
No resto do mundo os metamorfos possuem a forma de outros animais. Como as mulheres-hiena da África (o único lugar onde a metamorfose é dita exclusivamente feminina). E as pessoas-tigre da Malásia. Existe um caso de um homem malaio chamado Hadji Abdallah, que foi encontrado em uma armadilha para tigres, perto de onde gado estava sendo morto. Ele confessou ser um licantropo e pagou as cabeças de gado mortas.
Na índia é dito que o Baris se transformam em leopardos, por isso que para eles o animal é sagrado, e não existem casos de homens atacados por esses felinos.
Na américa antes da colonização, os índios Mbayas acreditavam que as velhas se transformavam em jaguares depois de mortas. Os feiticeiros dá tribo dos Abipones diziam ser capazes de se transformar em jaguares invisíveis (esses sim são perigosos). Ambas as tribos são de territórios não brasileiros, ou seja, a licantropia chegou aqui de navio, junto aos colonos.
Mas todas essas histórias são de metamorfose e encontram-se longe do mito do lobisomem por assim dizer. A figura de homem-lobo só ressurge na China, e por incrível que pareça, e a mais parecida com o lobisomem brasileiro que existe.
Lá, entre muitas outras histórias, é dito de um aldeão que depois de perseguido por um lobo, ao tentar subir em uma árvore teve sua calça mordida pelo animal. A vítima sem conseguir pensar em outra possibilidade, pegou o machado e o fincou na cabeça do animal. No dia seguinte se descobriu que o lobo era um velho da sua aldeia, pois esse apareceu com um ferimento na cabeça e com fiapos de tecido entre os dentes.
Brasil:
É interessante a visão do lobisomem no norte e nordeste do Brasil. O mito serve para explicar o “amarelão”. Diz-se que o corpo cansado e fraco dos homens com a dita doença precisa de uma dose extra de sangue para continuar a viver, sendo assim os enfermos devem virar lobisomens para saírem de noite em suas caçadas e retirar os fluídos das vítimas.
Mas o amarelão não era a causa da licantropia, não, existia um ritual certo para se hibridificar. É preciso ir de noite em uma encruzilhada, ficar completamente nu, dar sete (olha ele ai de novo) nós em suas roupas, rolar no chão e uivar o mais parecido com lobo que conseguir, e pronto. Para dar fim a metamorfose basta furar o dito cujo com um objeto pontiagudo, assim que se é tirada uma gota de seu sangue ao menos, o auto amaldiçoado volta a forma humana. Mas muito cuidado, se algum dia você fizer um lobisomem se desvirar e voltar a ser homem, não abaixe a guarda, pois a vergonha de ser descoberto e o medo da reação das pessoas levam o desencantado a se voltar contra o próprio salvador, e passar-lhe fogo, ou ainda fincar-lhe a peixeira. E é por isso que não se existem dados concretos nenhum sobre essas criaturas, e nem testemunhos definitivos.
Pobre do lobisomem paulista, é um “animal” que, além de coprófago, beira o patético, e ainda por cima é depressivo. Quem conta é Cornélio Pires:
“O lubisóme é um cachorrão grande, preto, que sai tuda a sexta-fera cumê bosta de galinha, daquelas preta, mole, que nem sabão de cinza... Ele sai e garra corrêmundo nu’a toada, sem pará, cabeça-baxa, esganado e triste... Vacê arrepare in tuda a casa de sitio: in baxo das jénela tá tudo ranhado de lubisóme. Ele qué intrá p’ra cumê as criança que inda num forô batizada...”
No sul pouca ou nenhuma mudança ocorreram em relação a visão europeia pós-cristianização do mito, ou seja, a licantropia como castigo divino.
É estranho que eu não achei menção nenhuma a noites de lua cheia, ou mesmo a balas de prata no livro “Geografia dos Mitos Brasileiros” de Luís da Câmara Cascudo. Que é uma verdadeira bíblia de folclore, explicando a origem de tudo. Em outros livros que tratam do mesmo tema, são citados os dois elementos, porém nunca explicando sua origem.
Uma teoria minha, é que essa parte do mito é recente no lobisomem sul-americano, adquirida apenas no século XX, com o cinema. O primeiro filme de lobisomem que eu tenho noticias é “The werewolf of London” de 1935. Os estadunidenses, que faziam esses filmes, herdaram o mito dos saxões, onde ele deveria ter essas características (lua cheia e prata), e que foram portanto assimiladas por nós. Mas caros leitores (plural... até parece, mãe, você é minha única leitora, vou falar diretamente com você ok?), mas mãe, isso é uma suposição minha tá? Eu posso estar falando a maior merda do mundo.
As formas do bichão:
Calma mãe, já tô acabando.
No inicio, o lobisomem era na verdade apenas um lobo de tamanho atroz, simples assim, sem qualquer hibridificação.
Com os festivais Lupercais (eu expliquei na postagem passada, lembra mãe?), que a forma meio homem meio lobo entra em cena. Desde então se vê o lobisomem como um lobo com braços e pernas humanas. Que coisa feia!
Mais feio ainda eram os brasileiros, os amarelões do nordeste tinham orelhas de burro, no centro-oeste existiam alguns que eram 1/3homem, 1/3 lobo e 1/3 porco, isso quando não tiravam o lobo da equação e virava só um homem porco.
Nos filmes antigos, a maquiagem só permitia que o lobisomem fosse um homem peludo e com dentes compridos e roupas rasgadas, ainda assim melhor que seus antecessores.
Mas a visão mais interessante (MAIS DA HORA!), na minha opinião, veio apenas nos anos 80 com o filme “Um Lobisomem Americano em Londres”, onde vemos uma criatura grande, musculosíssima, com um rosto mais lobo que homem, corpo completamente coberto de pelos, rabo, tronco humano e que pode tanto ser bípede quanto quadrupede. Animal! Se me permite o trocadilho.

ELE FICO ASSIM!
Mãe, se você chegou até aqui, obrigado pela paciência da senhora em ler tudo.
Próximo post: A criação do meu lobisomem.
PS: Pequena curiosidade sobre traduções idiotas de títulos de filmes: “The Werewolf of London” de 1935, veio para o Brasil com o titulo de “O Homem Lobo”, quando em 1941 saiu o filme “The Wolf Man”, como a tradução literal era do outro filme, eles deixaram: “O Lobisomem”. Então não se confundam, o wolf man é o lobisomem, e o werewolf é o homem lobo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário