Eu sempre adorei essa criatura, acho que eu me identifico com ela. O lobisomem me parece uma metáfora de mim mesmo; Não, não só de mim, do ser humano no geral. A eterna luta do homem para controlar seus impulsos imorais e violentos, ou seja, a forma hibrida é o equivalente do arquétipo da sombra para a psicologia. As transformações durante a noite, equivalentes ao medo do escuro, do desconhecido. É um mito simplesmente maravilhoso. A beleza do grotesco!
Mas não apenas por eu ser grotesco por excelência eu gosto do lobisomem. Ele também sempre foi para mim um sinónimo da força, da bestialidade e da fúria. Um ente impossível de ser contido e capaz de petrificar (de medo) qualquer um apenas com um rosnado possante.
A última característica marcante é a rusticidade, mesmo que na forma humana. Como os mitos sempre se passam no campo, é fácil pensar no lobisomem como um homem simples e rural.
Resumindo, se me pedissem para descrever um lobisomem eu falaria: um caipira (com o perdão da palavra), que mesmo na forma humana se assemelha a um ser mais primitivo, Neandertal: alto, forte, peludo e apresentando feições que pareçam ter sido esculpidas a faca. De pouquíssimas palavras, misterioso e nunca sorri. Interessante, eu nunca tinha percebido que na minha concepção, ele é meio animal mesmo quando homem; Na forma híbrida é um monstro com mais de 2,5 metros, extremamente forte e extremamente ágil, possui sentidos aguçados e uma inteligência muito superior a de qualquer animal.
Até aqui tudo certo. Todos esses aspectos foram incorporados ao personagem sem problemas, já o fator do tom de sua pele me tomou alguns minutos. O meu lobisomem é um homem nordestino estereotipado, ou seja, possui a pele parda. Caro leitor, qualquer preconceito que você tenha visto na frase anterior, é coisa completamente da sua cabecinha.
Porém a própria visão nordestina do lobisomem, é que ele é não só branco, como anêmico. Existe uma história interessante, de um velho chamado Simão Gondim, que vivia no Rio grande do Norte, e era muito temido apenas por possuir pele alva e ter olhos azuis. Certo dia, quando esse teve tuberculose e tossia sangue, disseram que ele estava cuspindo o excesso de sangue de suas caçadas noturnas; Simão acabou por morrer de fartura, alimentou-se tanto que certo dia teve uma crise, e passou dessa para uma melhor enquanto expelia seus excessos (essa história está no “Geografia dos Mitos Brasileiros” de Luís Câmara Cascudo, porém em versão não menos resumida).
Enfim, voltando ao tópico depois da breve divagação, achei melhor que meu lobisomem fosse branco. Afinal, ele tem raízes europeias e o quase consenso no Brasil quanto sua arianidade;
Pode parecer besteira se preocupar com esse tipo de coisa, e talvez até seja mesmo, será ninguém além de mim se preocuparia com isso? Não sei dizer, mas um ponto crucial do meu trabalho, com essa personagem e também com a do saci e da mula, é que essas três personagens são espécies de criaturas, ao contrario do curupira que é um ser único. E por esse motivo eu queria evitar ao máximo abrir espaços para comentários do tipo: “Nossa, eu sempre pensei no lobisomem diferente disso”.
Acho que não ficou claro, então vou explicar de outra forma para compensar minha inabilidade como dissertador; O lobisomem da minha animação é O lobisomem, e não UM lobisomem. Ele é feito para representar toda a classe de criaturas, uma personificação do mito, e não apenas um homem qualquer que tem licantropia.
Certo, temos ai um personagem... mas não parece que falta alguma coisa? Alguma característica para dar um tempero a mais, o personagem ainda está muito comum, é preciso de uma alma!
Hehehe, a última característica adicionada veio espontaneamente, eu vi tantas características similares entre o lobisomem e o western, que foi impossível não fazer um referenciar o outro e transformar meu metamorfo em um caubói. Aliás, transformar é uma péssima palavra, pois o perfil que eu mostrei anteriormente serve para qualquer personagem de faroeste, principalmente os do tipo espaguete (deixo explicações para outro tópico) sem que qualquer coisa fosse mudada.
É tão verdade o paragrafo anterior, que apesar de parecer que eu pensei previamente nisso tudo, na verdade eu me dei conta disso, e bem tardiamente, já nas filmagens, quando eu arrumei uma jaqueta e um chapéu para o personagem. “Álvaro, pensa no que o Clint Eastwood faria.” (Álvaro é o interprete do lobisomem), puis um cigarro em sua boca, cortei falas, mandei toda a movimentação de cena ser contemplativa a ponto de o mais pequeno movimento parecer algo precioso, não importa o tempo que leve, o que importa é a apreciação do ato de se riscar um fósfora. E as rugas! As abundantes e preciosas rugas! Elas deixam tudo mais bonito, sem brincadeira. Stephen King, em algumas notas na introdução de sua série de livros “A Torre Negra” diz sobre o filme “O bom, o mal e o feio” (também conhecido com “Três homens em conflito”):
“Numa tela de cinema, projetado com as lentes Panavision certas, Três Homens em Conflito é um épico que rivaliza com Ben-Hur. Clint Eastwood parece ter uns cinco metros de altura, com cada espeto de barba brotando no rosto mais ou menos do tamanho de uma pequena sequoia. Os sulcos rodeando a boca de Lee Van Cleef são fundos como desfiladeiros e quem sabe não há um filete d'água no fundo de cada um.”
As rugas são preciosas! Elas são a melhor caracterização que esse tipo de personagem pode ter, mostram em apenas um enquadramento simples, o que um milhão de palavras falhariam e dizer e uma centenas de ações mostrariam com muito custo. Sem contar que essas mesmas rugas levam o pistoleiro sem nome (personagem de Clint Eastwood no filme) ao cúmulo do feio-bonito, uma beleza máscula, selvagem, rústica e praticamente perdida com a onda de homens andrógenos que temos hoje. Ele é um verdadeiro homem! “Pô Léo, você é o maior viadão, fica falando ai do cara. Ha ha ha. Sua bixinha”. Vai se foder! Tira essa merda de pensamento antiquado da cabeça, eu falar que um homem é bonito não interfere em nada na minha opção sexual porra!
Enfim, meu lobisomem precisa das rugas! Precisa de tudo que está associado com o western, precisa ser tão épico, lindo e precioso quanto os personagens do Sergio Leone! Deu para perceber o quanto eu sou apaixonado por esse tipo de filme né?
Voltando ao racional, eu não sei quais dessa série de características foram adicionadas antes, e quais depois de eu perceber que o lobisomem é o faroeste espaguete, mas eu achei que isso enriqueceu tanto o personagem e a história em si, que acabei fazendo isso com todos os personagens, transformei o curupira no expressionismo alemão e o saci no cyberpunk japonês. O que ainda trouxe mais uma característica que considerei formidável a animação: três estilos tão distintos, colocados juntos fazem os personagens ficarem além de mais profundos, mais diferentes entre si, o que torna a briga do lobisomem e do curupira, assim como os motivos do saci em enganar os dois, ainda mais verossímil. E ao mesmo tempo que os afasta, os aproxima, pois com o passar da história os estilos convergem para um ponto comum e se misturam, e ao meu ver desaparecem no resultado.
Um grande orgulho me invade quando eu penso em tudo isso, eu não poderia esperar algo melhor da minha animação, espero que as pessoas sintam pelo menos uma fração de tudo isso ao assisti-la.
Vou deixar as explicações sobre os outros dois personagens para postagens futuras, pois já me estendo demais. Em breve também coloco mais alguma cena aqui.
Nenhum comentário:
Postar um comentário