De inicio o termo spaghetti western, tinha conotação pejorativa, e foi inventada por críticos que diziam que esse filmes não possuíam raízes culturais, não passando de imitações baratas e oportunistas.
Para Gaston Haustrate, critico de cinema, os diretores do faroeste espaguete eram claramente incapazes de apreciar a “alma” do “autêntico western”, eles decidiram então “deformar” certos aspectos formais do gênero, e revelaram assim os piores excessos do “temperamento Mediterrâneo”.
Mas o que os italianos teriam feito para gerar tamanha fúria, e até mesmo comentários com um certo cunho preconceituoso disfarçado?
Para mim, tudo não passa de um joguinho de “não mexa no que é meu”; Os italianos, sempre produziram filmes incríveis, de notável poesia e qualidade, tanto quanto filmes oportunistas, que pretendem gerar lucros apenas por sua explicitação gráfica, e o atendimento de uma demanda de gênero no mercado (exemplo: fazer filmes pós-apocalípticos depois do sucesso de Mad Max – 1979, George Miller). E no faroeste, encontramos ambos os casos.
O subgênero espaguete começou com um fenômeno mundial: o aclamadíssimo filme Por um Punhado de Dólares – Per un Pugno di Dollari, filme italiano de 1964, dirigido por Sergio Leone, estrelado por Clint Eastwood, misturava um elenco de estadunidenses e italianos, gravado na Espanha, e baseado no filme japonês de Akira Kurosawa Yojimbo, o guarda-costas – Yojimbo 1961.

O pistoleiro sem nome
A idéia de basear um filme de western em um filme de samurais é brilhante, pois as duas figuras, do samurai e do caubói, são muito semelhantes se pararmos para pensar. Porém, esses são méritos que não me cabem aqui discorrer, abro esse parágrafos apenas para transcorrer a seguinte curiosidade: a moda pegou, a partir de então até mesmo Holywood passou a produzir filmes de faroeste inspirados em filmes de samurais.
O filme de Leone fez tanto sucesso, que reanimou o gênero, que já estava em decadência nos EUA dês da década anterior. O filme gerou uma sequência: Por uns Dólares a Mais - Per qualche dollaro in più de 1965, um prequel (denominação usada para denominar produções lançadas depois, que narram os acontecimentos anteriores aos filmes que se sucedem) Três Homens em Conflito - Il buono, il brutto, il cativo de 1965, também conhecido como “O bom, o mal e o feio”, esse último não é apenas considerado o melhor faroeste espaguete já feito, nem tampouco apenas um dos melhores westerns, mas sim, um marco na história do cinema, e um dos melhores filmes já feitos. Para ser ter uma pequena noção, a música tema, que toca durante a tela título, virou o maior estereótipo que o gênero western possui. Estas três películas ficaram conhecidas como “A trilogia dólar”.
Mas esse era só o começo do subgênero, que durou até 1978. Com o passar do tempo cinco características foram claramente delineadas, variações em relação aos westerns tradicionais. São elas:
_Maneirismo, ou seja, se afastar da realidade a fim de elevar a produção a um patamar mais épico, mais extraordinário e mais emocionante. Característica presente desde a Trilogia Dólar.
_O picaresco, que são os heróis trapaceiros e malandros.
_Teor político e criticas sociais contra o imperialismo norte americano.
_Clima funesto e macabro. Um bom exemplo é o inicio do filme Django (Django, 1966, Sergio Corbucci) onde o protagonista aparece atravessando um deserto a pé arrastando algo que esta fora do enquadramento, um corte para seus pés em um lamaçal, a câmera finalmente mostra o que ele arrasta, é um caixão, neste exato momento o título do filme aparece em superposição.
_Westerns leves. No caso, comédias de faroeste.
Todas essas características são herdadas dos chamados Peplums,os filmes italianos de aventura pseudomitológicos, onde os heróis eram sobre-humanos e fortes. Esse gênero é o pai dos faroestes espaguete, basta trocar os músculos por revólveres.
Mas a revolução do espaguete não para por ai, nesses filme temos pela primeira vez o protagonista sujo, a desglamurização dos lugares. Violência em quantidades nunca antes vistas. A falta de herói. Os climas densos e pessimistas. Não é errado dizer, que na ânsia de deixar um clima mais realista nas produções, os italianos acabaram por “pecar” pelo excesso. Na tentativa, por exemplo, de fazer algo sujo, cheio de areia, como provavelmente são as cidadelas no meio do deserto, os cenógrafos enchiam os personagens, com tanta poeira, que virava algo até caricato.
E é ai que entra o cinema B italiano.
O termo “filme B” surgiu nos EUA na década de 1920, durante o que se chamava de “sessão duplo”, onde se ia ao cinema e pagando um ingresso se assistia a dois filmes: o primeiro, a tração principal, era chamado de filme A, o segundo a ser exibido normalmente era do mesmo gênero do primeiro, porem sendo uma produção mais barata e menos lapidada, já que era feita com o proposito de ser apenas um complemento de outro filme, esses eram chamados de filmes B. O termo se ampliou, e nos dias atuais é utilizado para designar qualquer produção barata, com poucos recursos. Um dos países que teve a maior produção de filmes B, foi a Itália.
O auge do cinema B italiano foi entre as décadas de 60 e 90, onde os produtores de lá utilizavam os assuntos em pauta (um exemplo, já citado anteriormente, filme pós-apocalípticos lançados depois do sucesso de Mad Max), para lançar dezenas de filmes com o mesmo assunto, de maneira rápida, mal feita e apenas para gerar lucros. Onde todos os elementos eram exageradíssimos, para atrair ainda mais publico, assim como um forte apelo erótico. É claro que o faroeste espaguete não saiu ileso dessa. Como uma cascata, despencavam produções, uma mais caricatural que a outra, cada qual tentando fazer o vilão mais desumano possível e o protagonista hábil com armas de fogo, com rajadas de violência e também de erotismo.
Esses filmes, de tão exagerados, caíram no ridículo e passaram a parecer comédias pastelão, sendo impossível não rir com alguns deles. Outro exagero, são a quantidade de sequências, provavelmente para economizar tempo de produção, o personagem Django por exemplo estrela 18 produções, e quase nunca é interpretado pelo mesmo ator.
No fim o termo que inicialmente era uma ofensa: faroeste espaguete, acabou sendo amplamente utilizado, e adotado por todos, virando um, digamos, “apelido carinhoso”.
Esse subgênero ainda transformou para sempre os westerns hollywoodianos, que, vendo o sucesso que faziam, acabou por incorporar muito de sua estética. Os westerns pós-espaguete são mais abertos e variados, muitas vezes incorporam narrativas complexas, e gostam de se aproximar mais da verdade humana.
Certo. Agora que tudo está devidamente explicado, ou assassinado, levando em consideração que eu resumi décadas inteiras em um único paragrafo. Eu gostaria de falar sobre um filme especifico, que para mim é o faroeste espaguete definitivo, mais do que isso, o western definitivo. Graças a ele que mudei minha visão a respeito desse gênero, que antigamente, eu não tinha vergonha alguma de admitir, não era muito do meu agrado. É bem verdade que até hoje existem muitos westerns clássicos que eu não gosto, porém esse filme me fez receber de braços abertos qualquer faroeste italiano, mas existe um toque de frustração nisso também, como para mim ele é o melhor, e também o primeiro do subgênero que eu assisti, não importa quantos outros filmes, dentro da mesma temática, eu assista depois desse, nenhum será capaz de destrona-lo.
O filme em questão é Era uma Vez no Oeste - C'era una volta il West, de 1968. Quando eu assisti esse filme pela primeira vez, não faz muito tempo, inicio de 2009, foi de maneira despretensiosa, já se passavam das três da manhã da madrugada de um sábado para domingo, quando surge a ideia entre os moradores da minha “república” de assistir a um filme, e esse foi o escolhido. Como o filme tem três horas de duração, achei que teria que dividi-lo em duas partes, e terminar de assistir apenas no dia seguinte. Ledo engano, o filme começou, e ao contrario dos meus colegas, que foram caindo no sono um a um, eu permaneci, extasiado, hipnotizado, com meus olhos vidrados na tela. Era tudo tão perfeito! As cenas externas, a cenografia, a interpretação, a feiura dos personagens! Tudo magistralmente encaixado e embalado pela trilha sonora simplesmente fantástica composta por Ennio Morricone.
Quando você assiste a todos os westerns feitos por Sergio Leone, que são quatro: a trilogia dólar e Era uma Vez no Oeste, na sequência em que foram feitos, é fácil perceber a evolução da técnica de narrativa pelo qual passou Leone.
Começamos com Por um Punhado de Dólares, filme onde um pistoleiro sem nome (Clint Eastwood) chega a uma cidadezinha pequena, dividida por dois grupos que lutam pelo controle da região. A película tem pouco mais de 90 minutos, e nela existe uma porção de personagens, situações, diálogos e reviravoltas no enredo.
Então passamos para Por uns Dólares a mais, onde vemos o mesmo pistoleiro sem nome novamente, dessa vez seguindo os rastros de um grupo de foras-da-lei, ainda mais (fora da lei) que ele próprio, para isso ele terá que competir com um coronel (Lee Van Cleef) pela captura dos bandidos. Dessa vez, tudo decorre em duas horas, em um roteiro mais simples, e apesar de uma quantidade ainda relativamente grande de personagens, podemos resumir os que realmente importam em três: os dois já citados, mais o líder da gangue El Índio. Nesse filme, os personagens ainda falam bastante.
Em Três Homens em Conflito, vemos episódio ocorrido antes do filme Por um Punhado de Dólares. O filme tem mais de três horas, a história mais simples contada até agora, e o único que realmente gosta de falar, é Tuco (Eli Wallach). E dessa vez realmente são apenas três personagens: o feio (o mexicano Tuco no caso), o bom (Clint Eastwood, com o mesmo personagem) e o mal (Lee Van Cleef, que apesar de interpretar um personagem completamente diferente, tem uma caracterização idêntica ao filme anterior). A narrativa tenta ser tão simplificada, que só sabemos que o filme vem antes, dos outros dois, de maneira subjetiva, em uma cena no final, onde o pistoleiro sem nome consegue o seu característico poncho, usado nos outros dois filmes.
É fácil prever o que teríamos em Era uma Vez no Oeste não é? Foi até bom que esse tenha sido o último western feito por Leone. Imagino que se ele tivesse continuado, talvez teríamos filmes que seriam a síntese da síntese da síntese. Com histórias tão simples que nem existiriam, filmes onde existiriam apenas o duelo, apenas dois personagens sem nome, e cada um com direito a apenas uma frase de impacto. Brincadeiras a parte, melhor dar continuidade:
Apesar de agora serem cinco personagens, e todos brilhantemente desenvolvidos, podemos dizer que os que realmente importam, são apenas dois: O homem com a gaita, ou simplesmente Gaita (The man with the harmonica, interpretado por Charles Bronson) e Frank (Henri Fonda), e durante as três horas de filme, o que vemos é basicamente um acerto de conta entre os dois. Não existem diálogos mundanos aqui, todos são feitos utilizando-se apenas frases, com uma poesia dificilmente igualada em outros filmes. E uma última característica que torna essa película uma obra prima maior, é o fato de que todos os personagens masculinos sabem que não chegarão vivos até o fim, transformando o filme, nas palavras do próprio Leone: em um dança da morte.
O clímax do filme é a sequência (conjuntos de cenas que formam uma unidade de ação dramática) que eu mais gosto, e digo isso, não apenas dentro desse filme, mas a sequencia que eu mais gosto, de qualquer filme que vi até agora. O momento que antecede o clímax, é uma conversa entre Frank e Gaita, onde o primeiro deixa claro que naquele momento, o dinheiro não importa a eles, que as terras não importam, que a mulher não importa, pois o futuro, o futuro não pertence a eles, tudo o que eles tem, é o presente. Logo em seguida um diálogo semicômico entre Cheyenne (Jason Robards) e Jill McBain (Claudia Cardinale), lembrando que nenhum dos dois personagens é um alivio cômico na trama, essa cena serve simplesmente como uma, usando um termo musical, diminuição de tom para que se crie uma maior expectativa pelo que está por vir.
E então entramos finalmente no clímax, são mais de oito minutos da sequencia do duelo, pode parecer cansativo quando se leva em conta que serão apenas dois homens se encarando por tanto tempo, mas após ver o resultado final, é triste que não tenha dezesseis minutos. Entramos na sequência em um plano aberto, mostrando Frank andando pelo cenário enquanto a música está baixa e tensa, Gaita surge em primeiro plano no momento exato em que se ouve a primeira nota que aumenta o tom da trilha. Os personagens se movimentam pelo cenário, tudo perfeitamente sincronizado com a orquestra de Ennio, “reconhecendo o terreno” e se preparando para o duelo: tiram casacos, escolhem o local que ficarão, tudo com uma calma e austeridade incríveis, o futuro não pertence a eles.
Finalmente Frank fica estático, ele está pronto, a música começa a morrer. Gaita sorri, anda até ficar frente a frente com o vilão, e para, no momento em que a música sessa. E então o silêncio. O silêncio! Nada poderia gerar mais tensão e expectativa do que a total falta de som. O protagonista puxa sua jaqueta para trás, mostrando o coldre que contem o revolver. Um close no bandido, inexpressivo. Tudo o que eles tem, é o presente. Corta para um plano fechado do rosto do personagem principal, e então a câmera fecha mais ainda em seu rosto. Como se estivéssemos entrando na mente dele.
Nesse momento entra o flashback, junto a ele o ardido som de uma gaita, vamos Frank jovem, segurando o instrumento musical. O filme volta para o presente por alguns instantes, para mostrar um enquadramento apenas dos olhos do protagonista. Voltando ao passado, temos a única fala de toda a sequencia: o vilão diz: “Mantenha seu irmão feliz” e enfia o utensilio de sopro na boca na boca do protagonista que ainda é uma criança, no instante antes de “matar” seu irmão, cena que se desenrola em câmera lenta, e no auge da trilha sonora. Em um baque voltamos para o presente no instante exato em que os personagens sacam as armas, e o bandido é baleado.
O vilão está morrendo, mas você não sente felicidade pelo protagosnista, este é o fim do clímax do filme, mas também a o fim da vida história da vida de Gaita, ele buscou desde criança por aquele momento, e agora que ele se passou, o que resta dele?
Era uma Vez no Oeste, é o carro chefe desse trabalho, a película que eu mais me baseei na elaboração da animação. Sem duvidas um dos meus filmes preferidos, e que me levou a apoiar meu PCC sobre o faroeste espaguete.