terça-feira, 6 de setembro de 2011

As Filmagens

Álvaro: “Posso perguntar uma coisa?”

Eu: “Manda”

Álvaro: “Você podia ter feito uma animação sobre qualquer coisa, e você escolheu justamente a que você precisava filmar um cara pelado?”

Eu: “Dispenso qualquer analise freudiana a respeito disso!”

-Dialogo ocorrido no dia da filmagem, enquanto Marcelo ficava semi-nu para as filmagens do Curupira andando pela mata.

As filmagens começaram a muito tempo, e duram até hoje. Mas para falar a verdade, o grosso mesmo da coisa foi feita em apenas 1 dia. Dia em que filmei todas as cenas do Curupira, interpretado pelo Marcelo Coelho e todas as cenas do Lobisomem humano, feito por Álvaro Pontes. Minto! Na verdade antes disso eu já tinha filmado uma cena de cada um dos personagens. Por quê? Simples, eu estava em um outro ritmo de trabalho, conciliando os meu afazeres da faculdade com a confecção do TCC. Mas com o decorrer do primeiro semestre achei melhor filmar “tudo” logo de uma vez, ou pelo menos o mais importante, afinal era um saco a situação: “Qual cena eu vou começar a fazer agora? A cena X. A então eu preciso marcar com o Y de ir filmar.” Era preciso uma otimização do tempo na produção!

Combinamos de gravar em um sábado, na república do Álvaro. O Marcelo chegou algumas horas atrasado... “Santa pinóia, Leonardo Thadeu! O rapazote lhe fazendo um favor, e você ainda dando uma de X-9 pra cima dele? Que feio! Se eu estivesse ai, arrancava suas sobrancelhas, só para você aprender!”. Poxa pessoa de linguajar (e hábitos) estranhos que fala comigo durante os tópicos, você tem toda a razão. O Marcelo estava fazendo apenas um favor para mim, ele poderia chegar o horário que quisesse, ou nem ir, se assim desejasse. Nessas horas eu gostaria que meu computador tivesse uma tecla que apagasse aquilo que eu já escrevi... Continuando: como o horário marcado era no período da tarde, fiquei apreensivo com a demora para o inicio das filmagens ficarem muito granuladas, a medida que a luz do dia fosse indo embora, mas depois lembrei: as filmagens eram para uma rotoscopia! Eu ia desenhar por cima, não importa a granulação!

Algo de interessante que aconteceu durante a filmagem, foi poder perceber o meu estilo como diretor. Chique isso né? ESTILO DE DIRETOR! Enfim, apesar da tendência poder ser vista já com a leitura do roteiro, só se tornou evidente para mim nas filmagens: a minha cinematografia reflete bem a minha personalidade. É onde o simples e o complexo se misturam, o hiperbólico toma força e os opostos se completam.

O que eu quero dizer com tudo isso:

Eu percebo que tenho um estilo de falta de estilo. Ou o que pode ser considerado uma falta de estilo para alguns. Prezo pelos planos longos, com o mínimo de cortes, câmeras fixas, e transições secas, cortes simples em maioria, com apenas um fade ou outro quando julgo extremamente necessário.

“Então Prioli, o senhorito é um péssimo diretor. Qualquer um dirige desse jeito.” É, pode ser. Quem sabe? Mas em uma época em que quase medimos o talento dos novos diretores em uma relação inversamente proporcional a quantidade de tripés que por eles é usado, me orgulho de possuir esse estilo de câmeras fixas.

Mas sinceramente, deixar uma câmera fixa é algo que condiz muito comigo. Pois atribui um minimalismo estilístico que eu muito aprecio. É sabido pelas pessoas que me conhecem, que eu gosto, em um exemplo mais abrangente do que as produções audiovisuais, que eu gosto de coisas monocromáticas, ou bicromáticas que seja. Conclusão, existem aspectos do minimalismo que eu prezo muito.

“Então, pra você, menos é mais?” Não! Com certeza não! Eu gosto da mistura do muito com o pouco. Os excessos vindo de mãos dadas com os modestos. “Ahn, como assim?” Exemplo idiota: o carro do Batman, no filme do Christopher Nolan. Inteiramente preto, porem com milhões de pedacinhos, e articulações que servem pra porra nenhuma, além de fazer o carro ser muito dahora! Outro exemplo: Uma vez eu vi uma katana, espada japonesa, ela era basicamente um pedaço de madeira negra inteiriço, sem nenhum entalhe, ou qualquer coisa que mudasse sua forma. Porem pintada por toda a extensão de seu corpo, tinha gravuras em vermelho de plantas, uma textura que deixava a peça simplesmente maravilhosa. Aonde eu quero chegar: eu tenho um gosto pelos contrastes, eu amo câmeras subjetivas, mas acho elas ainda melhores quando são usadas poucas vezes, e bem utilizadas. Afinal quando a câmera já se meche o tempo todo, a força e o impacto que causa ao andar por ai parece ser menor, do que a câmera fixa que se desloca (lembram-se das aulas de atrito estático e atrito dinâmico em física crianças?).

(Abro aqui um parênteses para explicar que câmeras subjetivas são na verdade câmeras que mostram visões subjetivas das coisa [bãh!]. Como por exemplo as câmeras em primeira pessoa, que mostram a visão do personagem. O termo porem foi banalizado, e hoje em dia é usado para se referir a qualquer tipo de filmagem que não utiliza um tripé, e é esse o sentido que eu também utilizo)

Ponto fora da curva:

Na verdade nem é tão fora assim, é mais uma cena onde se pode analisar o meu estilo de direção. Aqui temos o exemplo de um cena a câmera fixa atrapalhou. Primeiro o personagem tem uma fala, onde é enquadrado a face esquerda do personagem na parte esquerda da tela. A seguir um corte para a face direita enquadrada na parte direita da tela, e mais uma fala. Um terceiro corte para um enquadramento nos olhos de curupira, então ele pisca, fundindo para o flashback.

Primeiro enquadramento.

Segundo enquadramento.


Nela temos a câmera fixa em todos os momentos pré-flashback, porém nesse caso especifico, a movimentação do personagem é muito pequena, pois ele está com raiva, e eu não sei se vocês já perceberam, mas pessoas com raiva costumam se mexer menos: andam sem balançar os braços, falam com você com uma tentativa de olha penetrante que exclui qualquer jogo de cabeça.

Ou seja, a câmera está fixa, assim como o rosto. Uma cena que era para ser um tempero na animação, devido ao enquadramento e transição para o flashback, acaba por se tornar uma das piores cenas até agora. Por que? Um simples problema de matemática, usando um paralelo com a fotografia como exemplo, temos 3 fatores que variam o ISO (que determina a qualidade da foto), a abertura e o tempo. Três variáveis atrapalham, pois é muita coisa para se pensar, então eu sempre coloco o ISSO o mais baixo possível, para ter a melhor qualidade de foto, e fico com as outras duas variáveis, assim posso controlar a profundidade de campo. Porém uma foto durante a noite, se eu deixar o ISO fixo, e o mais baixo possível, minhas fotos ficarão escuras ou tremidas (caso eu não tenha um tripé) ou ainda precisarei usar flash. Para solucionar esse problema, eu costumo mudar a constante, deixo a velocidade do obturador em 50, assim minhas fotos não sairão tremidas, e ajusto a abertura e ISO de modo a deixar a foto com a maior qualidade possível.

Terceiro corte: close nos olhos.


Fusão para o flashback quando ele pisca, tudo fica colorido.


Nessa cena ocorreu exatamente a mesma coisa, eu costumo deixar a câmera fixa, pelos motivos já explicados, porem quando a movimentação do personagem também é fixa, fica estranho. Em comparação com as outras cenas, ela perde a vida, fica mecânica e fria, o que é péssimo para o momento em questão, em que se deve mostrar toda a braveza do personagem, então nesse caso, uma câmera subjetiva teria sido muito bem vinda. Vou tentar consertar isso posteriormente no After Effects. Agora me respondam, o que é pior, uma câmera subjetiva mal utilizada ou um efeito que imita uma câmera subjetiva? Hehehe.

Continuando o estudo de caso da cena em questão. Os cortes. “É verdade, você falou que só colocava cortes quando era necessário. Ai eles não são necessários.” Porra se são! Estou voltando nesse assunto, pois acho que não dei a devida ênfase para ele anteriormente.

Se formos extremamente rigorosos na verdade, nenhum filme precisa de cortes no meio das cenas, eles só são necessários mesmo quando existe uma mudança de local ou de tempo. Mas você consegue imaginar que filmes insípidos que seriam esses? Sem closes, sem ênfase em nada, sem câmeras passeando pelo ambiente, pois também não é necessário. É esse um dos motivos que as pessoas sentem dificuldade de assistir filmes antigos, eles faziam pouco uso desses recursos, pois a linguagem ainda não estava muito bem explorada (os outros são a falta de cor e de som). E é por isso que sou contra as correntes de pensamento funcionalistas. Função antes da forma? As coisas não precisam ser bonitas, apenas ser funcionais? Fazer coisas funcionais é fácil.

Cadeira:

-1 encosto

-1 assento

-1 estrutura de suporte (normalmente 4 pernas)

-2 apoios para os braços (opcional)

Tempere com um pouco de ergonomia. Sirva frio.


Viu como é fácil? Função é importante, mas é uma etapa fácil de se superar. Agora, tudo aquilo que dá tempero a vida, nessas coisas sim eu sinto o prazer de mergulhar, até me afogar.

Corta!

E uma das coisas que servem para dar o tempero de uma produção audiovisual, é o corte, as transições interessantes.

Nesse caso, achei que os cortes seriam importantes para criar o clima desejado. A cena fica mais dinâmica, o que é interessante, pois sintoniza com os sentimentos do personagem nesse momento. Também tira a mundaniedade dela, a destacando das demais, já mostra que a cena é mais importante que as demais, pois teve um cuidado mais especial com a sua estruturação (para quem ficou curioso do por que essa cena ser mais importante, é por que ela antecede o flashback que dá os motivos da história).

Toda essa minha caretice, em relação as câmeras subjetivas desaparecem por completo nos meus enquadramentos. Eu adoro enquadramentos “estranhos”, tirar o personagem do centro da tela, enquadrar só metade da sua cara, cortar o topo de sua cabeça (assassino!). É uma característica que eu percebi em mim, já nas aulas de foto. E um dos motivos que me levaram a escolher o cyberpunk japonês como influencia, é que ele segue completamente essa lógica. Vomitando sobre você uma série de enquadramentos inusitados. É impossível negar que essa cena sobre a qual estou discursando, é uma influencia completa desse estilo cinematográfico.

E por fim, os closes. Adoro closes, e acho que já deu para perceber. Acho que isso faz parte daquele pseudo-minimalismo que possuo, você foca em um elemento especifico, o deixa gigantesco na tela, e faz as pessoas prestarem atenção apenas naquele ponto.

Vou concluir o poste de hoje, com uma critica a mim mesmo, em vários momentos eu tentei fugir dos clichês, mas percebi que teve um deles que eu deixei passar. Eu usei a estrutura: plano aberto/close no assunto, mais vezes do que o bom gosto permite. É uma tática fácil e covarde de estruturação de narrativa, vou tentar tirar o máximo que der delas.

Um comentário:

  1. gostei bastante de ler esse Homer!
    mas não sei se consegui entender o lance das câmeras direito, mas enfim, tava gostoso de ler e engraçado!
    até o próximo!
    (quebrar oq vc tá escrevendo pra falar da cadeira e o jeito como vc começou, acho q gosto bastante de ler coisas q tem esse tipo de coisa, fikdik)
    beijo

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