segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A origem do Lobisomem

Na minha história, escolhi os quatro personagens mais populares do nosso folclore, o saci, o curupira a Mula-sem-cabeça e o lobisomem, acho que não há alguém que discorde dessa afirmação. Mas entre os 4, o lobisomem é sem duvidas o fodão, afinal ele é o único desses quatro mitos que não é exclusivamente brasileiro, alias ele aparece em quase todo o globo, no mundo ocidental não há lugar em que não tenha existido.

Como o texto ficou longo, dividi ele em três, começarei falando da construção do mito nesse primeiro post. A cristianização do mito, a visão portuguesa e a visão de fora da Europa, e sobre a forma da criatura com o passar do tempo, no segundo poste. E depois de como me baseei nele para construir o meu personagem no terceiro. Faço a divisão para não tornar a leitura muito massante, e ,pra quem não tiver a fim de ver tudo, pode ler só o último que é o que tem relação direta com a animação.

Provavelmente a referência mais antiga ao mito do lobisomem vem da Grécia. Na mitologia grega existe o rei Licaon, da Arcádia. Um certo dia Zeus (deus maior da mitologia grega) vai pernoitar em seu palácio. A história daqui para frente é confusa, existem inúmeras versões, alguns dizem que Licoan tentou matar o deus, outras versões dizem que o rei fez sacrifícios humanos, alguns dizem que o próprio filho, em nome do deus, que o deixaram muito irritado, por fim existem até mesmo as versões que dizem ter o soberano levado a mesa carne humana para que a divindade comesse.

Seja como for, o final é sempre o mesmo: o rei desperta a cólera divina e é transformado em lobo como punição de seus atos.

“Ah, Leonardinho, mas então nem faz tanto tempo assim.” Tem razão quem pensou dessa forma, a história acima é contemporânea a época das cidades estados, com pessoas vestindo lençóis (togas) e filosofando por ai. Mas eu a contei apenas para poder puxar suas origens, e essas sim são muito antigas, e a elas que eu me referia ao dizer: “provalemente a referencia mais antiga do mito do lobisomem”.

Existia na Árcádia, antes da Grécia ser Grécia (período pré-helênico) tribos canibais que reverenciavam um deus lobo, e ofereciam para ele sacríficos humanos (entende agora o ato de levar a mesa carne humana e oferecer sacrifícios?).

Mais ainda, dizem alguns estudiosos que o deus mais antigo dos povos que viviam na Grécia era chamado de Zeus-Licaeus. Ou seja, uma mistura de Zeus e Licaon. Ele era o deus da luz, e tinha um filho rebelde, chamado Nietimus (eu acredito que a palavra noite deriva do nome desse cara), que era o deus da escuridão, ambos estavam em luta constante, os períodos em que Zeus estava ganhando era iluminados (o dia) e quando Nietimus estava ganhando, a escuridão dominava (a noite).

“Tá, e dai?”

Poxa não dá para perceber? A noite significam a derrota de Licaeus, ou seja, o fato do lobisomem só se transformar durante a noite, vem daí. Não é maravilhoso?

“Mas o Zeus-Licaeus é o deus da luz, não do lobo”.

Você tem toda a razão. Acontece que nessa época talvez a escrita não tivesse sido inventada naquela região ainda, e se tinha sido (desculpem, não consegui achar informações a esse respeito) provavelmente era privilégio de poucos, sendo assim Licaeus, nome que como origem etimológica luke (luz) podia ser facilmente confundida com luko (lobo).

Ou seja, seria a origem do lobisomem uma simples confusão semântica?

Vamos para Roma?

É de conhecimento de poucos que no mito de Rômulo e Rêmulo ( Link da Wikiédia ) a loba que amamenta é a representação de uma prostituta (na época esse era o apelido da profissão), esse pseudônimo dado as meretrizes vem de uma antiga deusa que guardava os lares, o que explica a loba ter amamentado as duas crianças e ter lhes dado um “lar”.

Devido a tudo isso o canídeo era sagrado e reverenciado pelos romanos nas festas de 15 de fevereiro, as Lupercais. Nessas festas, jovens rapazes que vestiam apenas uma tanga com pele de lobo eram tocados no rosto com uma faca encharcada de sangue (derivado do sacrifício de cães e cabras) por um sacerdote. Esses moços, chamados também de lupercais saiam correndo e uivando, flagelando os habitantes.

“Pra quê tudo isso meu deus?”

Esses eram rituais de purificação, derivados de cultos orgásticos. As mulheres acreditavam que se flageladas pelos lupercais, seriam férteis e teriam bons partos.

Com a expansão territorial do império romano, a história se espalhou por toda a europa, mesmo com a eventual extinção do festival. Os frutos dos lupercais foram os Werewolfs (nos países de língua inglesa), os Loup-Garou do franceses e o Lobisomens da península ibérica. E assim cada vez mais o mito tomava forma.

Música do dia: Em vez de música vou recomendar um filme que assisti esse fim de semana, então vou reapelidar para "dica do dia". Dica do dia: o filme "O pagador de Promessas" de 1962, dirigido por Anselmo Duarte, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário